Elsíria

A noite parecia calma. O céu nem estava nublado. Elsíria, no entanto, sentia que iria chover. Ela tinha dessas coisas, desde pequena sentia o cheiro da chuva se aproximando. A mãe costumava dizer: “Eras, menina! Toda vez que tu abre a boca pra dizer que vai chover, num é que chove? Mas que diabo…”. Mas, naquela noite, em particular, Elsíria, ao voltar para casa, cheia de compras, sentiu o cheiro que tanto gostava. Em uma mão, algumas coisas para a cozinha: arroz, feijão, macarrão, tomate, cebola e até queijo – este último seu marido considerava luxo. Na outra, basicamente, coisas para limpeza: detergente, sabão grosso e água sanitária. Se chovesse ficaria difícil correr com tanta coisa. Gostaria ela de estar enganada, só dessa vezinha, gostaria que não chovesse. Ninguém precisaria saber que ela havia errado…

Choveu. E não foi uma chuvinha, foi quase uma tempestade. Elsíria, com as compras e os quilinhos a mais, correu para tentar se proteger. Procurou paradas de ônibus, loas, mercadinhos e nada. Foi quando viu a padaria do Seu José. Ah, o Seu José! Sempre salvando sua vida. Lembrou do dia em que não conseguiu achar bolo de milho em nenhum lugar, mas seu marido queria o maldito bolo. Seu José o fez. Ah, o Seu José…

Assim, entrou Elsíria na padaria e se acomodou por lá. Ficou em pé, olhando o movimento na rua. Como não havia porta – era dessas padarias abertas mesmo – alguns respingos molhavam o rosto, o cabelo ondulado e o corpo levemente arredondado da dona de casa. Ela até que estava apreciando a chuva, aquele cheiro, aquela calmaria, os carros passando na rua. Foi quando viu aquele casal, no meio da calçada. ‘Credo, que pouca vergonha!’, pensou. ‘Como pode?’. O casal, debaixo de um guarda-chuva, parecia não se importar com a chuva torrencial. Só se importavam um com o outro, no que parecia ser um interminável e sufocante beijo.

Elsíria continuava a pensar que aquilo não era coisa pra se fazer na rua, não. Ora, coisa feia! Negócio assim é íntimo. Contudo, não era particularmente o beijo que a intrigava, mas a sensação de conhecer aquele homem, quase sufocado pela mulher.

Sim… Elsíria reconheceria aquele chapéu em qualquer lugar. E aquela blusa. E aquele homem baixinho. Sim! Era seu marido. Mas que cafajeste! Como ele poderia fazer isso com a pobre e devotada Elsíria? Logo ela, que o amava tanto! Que passara noites e dias lavando, passando, cozinhando…Que ingratidão!

Muitas idéias passaram pela cabeça da dona-de-casa. Iria lá? Esperaria em casa? Choraria? Desmaiaria? Depois de muito chorar, decidiu ir até lá. Ele precisava saber que ela viu, que sabia e que não iria aceitar aquilo. Mas e as compras? Pra longe com as compras! Elas já não importavam. A única coisa que agora importava era enfrentar seu marido. O traidor.

Ela correu debaixo da chuva. Correu até o casal. Iria lá dizer uns desaforos para aquele… aquele… traidor! Cafajeste! Continuava a correr. Estava quase os alcançando, mas não viu que o piso daquela parte da calçada estava escorregadio. Escorregou. Escorregou. Escorregou. Caiu. Estava deitada, com o rosto no chão.

Elsíria ajoelhou-se e levantou a cabeça, mas não conseguiu enxergar nada, só um clarão. Uma luz muito forte. A luz aumentava. Aumentava. Aumentava. Um som de freio. Uma batida. Elsíria estava de novo no chão.

A dona-de-casa ainda abriu os olhos e viu aquela multidão ao seu redor. Todos a olhavam ou com um ar de espanto, ou de terror, ou de pena. Foi quando sentiu o sangue escorrer da sua cabeça e da sua boca. O sangue no asfalto era dela.

Sentiu sono, uma grande vontade de dormir, de fechar os olhos. Quem sabe, assim, a dor passaria. Até que Elsíria viu o chapéu. Sim, viu a blusa. Viu o homem baixo. Era seu marido. Ela já não estava enxergando muito bem, tudo parecia um pouco embaçado. Mas viu o marido. Ele, então, a veria e saberia que ela o tinha visto. Ele se aproximou mais e tirou o chapéu. Elsíria pôde ver o cabelo dele, molhado, por causa da chuva – que agora era um chuvisco – caindo sobre o rosto. Foi então que a dona-de-casa empalideceu e sentiu um grande aperto no coração. A cabeça latejava. Fechou os olhos e se foi. Seu marido era calvo.

Licença Creative Commons
A obra Elsíria de Lidia Carla Holanda Alcântara foi licenciada com uma Licença Creative Commons – Atribuição – Uso Não Comercial – Obras Derivadas Proibidas 3.0 Não Adaptada.

2 Respostas para “Elsíria”

  1. marvin Diz:

    blé..

  2. poxa, tadinha da elsíria…

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